As Cores das Dores (ou A Cor da Dor)

Angelo Mouta

13/07/2018

As emoções são paradoxais: ao mesmo tempo em que estremecem o corpo e nos transportam para outra dimensão de êxtase, envolvem também marcas, dilaceramentos, dor.

Olhar a intensidade de certas emoções de frente exige coragem. Não é a toa: desde os primeiros momentos em que aprendemos a nomear o que sentimos, nosso grupo social nos ensina que algumas emoções são "boas", outras "ruins". Logo, se uma emoção é gostosa, então ela deve ser mantida, e se dói, tem que ser removida (o quanto antes, de preferência!). O problema dessa lógica é que aprendemos que não podemos - ou não devemos - entrar em contato com algumas emoções (bem conforme a máxima "fica triste não, vai ficar tudo bem!").

Se pararmos pra pensar, poucas coisas são tão legítimas e completamente humanas quanto sentir. O toque na pele, o cheiro e o gosto de um café, o som de uma música que arrepia, a mistura de cores no céu quando o sol desce no horizonte. Simplesmente S-E-N-T-I-R!

Se sentirmos algo, há uma série de acontecimentos de nossa história que contribuem pra isso, que são igualmente genuínos, e que nos mostram que, apesar dessas regrinhas que aprendemos, é valido experimentar cada uma das texturas que o caminho oferece e se lambuzar delas, sendo mais sensível ao que é do sentir e menos ao que é do pensar.

Entender - e sentir na pele - que viver é, dentre tantas coisas, lidar com os acasos. Os acasos desestabilizam as emoções e, ao mesmo tempo, sem eles não seria possível estabilizar ou haver "equilíbrio".

Não há uma única definição do que seria equilíbrio - apesar de nosso grupo social, por vezes, associar "equilíbrio" a alguém "centrado", "auto controlado", "contido", sem maiores excessos, ou seguindo em uma temperatura morna - quase fria.

Equilíbrio não significa algo estático. Por exemplo: um equilibrista em uma corda faz qualquer coisa, menos ficar completamente parado. Equilíbrio ou estabilização é sobre se dispor a oscilar junto com os acasos, contemplando (em vez de julgar) suas formas, seus cheiros, seus sabores e dissabores, e as diferentes cores de seu espectro. Equilíbrio pressupõe desequilíbrio. Estar estático é estar morto.

Tudo isso envolve conviver com o turbilhão de emoções que surge, do que agrada ao que sufoca. O divertido da coisa é se dar conta que tudo isso é passageiro: a corda precisa balançar pro equilibrista achar um lugar de mínima estabilidade, seguida por outro balançar, e assim por diante.

Então, se preciso for, "fica triste, sim!", entra em contato com essas emoções, escuta o que há aí, e depois segue. Nem sempre é fácil, mas pode fazer bastante diferença. Outra parte boa é que pode existir ajuda: de pessoas queridas, de profissionais psicólogos e psiquiatras, de pessoas com as quais é possível compartilhar o peso de existir. Nem tudo precisa estar bem o tempo todo, assim como nem tudo precisa estar mal o tempo todo.

Apreciar todas as cores, inclusive as cores das dores, exercendo atenção plena a todas essas emoções, é uma via de aproximar-se de um melhor entendimento de si mesmo e da sua história de relações - consigo mesmo, com os outros, com o que já passou e com o que você espera que venha. É permitir intimidade consigo mesmo e ter melhores condições de decidir sob quais condições deseja conduzir a sua própria vida!

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